Pensei q talvez tivesse sido a melhor decisão, mas quando alguém resolve sair de nossa vida não seria egoísmo simplesmente sumir porque facilita muito para si enquanto uma lacuna é criada e o tempo fica quebrado.
Também tomei chá, juntei minhas coisas com os outros, nos abraçamos, nos felicitamos, desejamos boa sorte, demos as mãos e rumamos para a costa...
De frente para o mar nos afastamos. Sentei-me e comecei a sentir o solo, o ar a água e o ambiente a minha volta. Fechei os olhos. Podia ouvir o canto de liberdade e sabia q outros já estavam seguindo seu caminho. O tempo nunca para. Mesmo eu querendo permanecer uma montanha vem o vento me tirar pedaços e me esculpir, vem a chuva me lavar e me levar para o mar. Então decidi ser o mar e me dividi.
Fiquei parado, frio, eterno até que o tempo mude a eternidade. Desagüei esperando ser um bote para navegar no azul puro e a curiosidade saciar. Esvaziei, empurrei e guiei a brisa. Velejei para depois do horizonte nas águas frias do oceano ártico, estava aquecido com o futuro e possibilidades infinitas que surgem no percurso, tanto que me empolguei e me entreguei ao acaso que favorece o desavisado, mas eu não era desavisado e esqueci de prestar atenção nos pequenos sinais. Via meu olhar no reflexo da água e quis ser rápido, quis tudo e não vi o que se aproximava. Não vi o gelo que flutuava à minha frente e era um muro barrando a luz do sol, choquei-me contra ele e me despedacei, espalhando pedaços e perdendo um pouco de fé no começo de uma nova jornada. Minhas partes ficaram estagnadas por uma semana, flutuando em volta do muro e me fazendo lembrar da ilusão da velocidade.
Resolvi afundar e ficar perdido, mas há coisas que aparecem na hora certa. E ouvi o canto, e vi o brilho córneo mágico, e a graça das coisas que permanecem escondidas até o momento de se revelarem. Logo me tornei carne, canto e imponência e brilhei com meus iguais que vieram me resgatar.
Nadei, e era uma nawhval, e era bom. Passamos pelas fendas do muro, atravessamos o oceano, conheci o litoral da Terra de Franz Josef, rumamos pelo mar da Groelândia, conheci a costa de Svalbard e no mar da Noruega me despedi.
Pisei na arei e estava na Islândia, país insular situado sobre Dorsal Média Atlântica. Eu estava em um dos melhores países do mundo para se viver devido ao seu alto padrão de vida, ao seu elevado índice de desenvolvimento humano e à alta qualidade de vida da sua população.

Sentia-me privilegiado por estar lá, sentia-me melhor do que os outros e gostava de estar naquela posição. Vivi em um grande centro, trabalhei e ganhei bem, morei em belas casas e apartamentos.

Mas descobri que o deslumbramento e a ganância não trazem a boa vida e mais uma vez errei. Um homem precisa errar quantas vezes para aprender uma lição? Será que encontrarei um dia a salvação? Eu estava louco, no duro. E não queria saber de mais nada. Eu quis fugir daquela ilha vulcânica, mas não tinha força no espírito, no físico e no intelecto para tanto. Retirei-me para o isolamento, não mais festas, não mais pessoas. Precisava estar são, em paz, claridade e serenidade. Peguei meu cachimbo e fui morar em duas casas gêmeas. Eu era uma e era outra. Eu sempre fui muita coisa e a aura celta talvez pudesse me ensinar a ser homogêneo.

Durante a festa do Meio-Inverno, no dia 11 de fevereiro acendi um incenso e rezei para os deuses nórdicos. O vento antigo soprou e lançou o desapego em minha pessoa. O novo viking estava pronto para navegar novamente. E fui criança durante o sono.