sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Retrato 4

Era meio dia e trinta quando acordei. Lá fora dois dos nossos conversavam enquanto tomavam chá quente. Levantei-me e segui em direção a eles. Perguntei pelos outros e me disseram que já haviam partido sem deixar rastros; quando acordaram já não estavam mais entre nós.
Pensei q talvez tivesse sido a melhor decisão, mas quando alguém resolve sair de nossa vida não seria egoísmo simplesmente sumir porque facilita muito para si enquanto uma lacuna é criada e o tempo fica quebrado.
Também tomei chá, juntei minhas coisas com os outros, nos abraçamos, nos felicitamos, desejamos boa sorte, demos as mãos e rumamos para a costa...
De frente para o mar nos afastamos. Sentei-me e comecei a sentir o solo, o ar a água e o ambiente a minha volta. Fechei os olhos. Podia ouvir o canto de liberdade e sabia q outros já estavam seguindo seu caminho. O tempo nunca para. Mesmo eu querendo permanecer uma montanha vem o vento me tirar pedaços e me esculpir, vem a chuva me lavar e me levar para o mar. Então decidi ser o mar e me dividi.
Fiquei parado, frio, eterno até que o tempo mude a eternidade. Desagüei esperando ser um bote para navegar no azul puro e a curiosidade saciar. Esvaziei, empurrei e guiei a brisa. Velejei para depois do horizonte nas águas frias do oceano ártico, estava aquecido com o futuro e possibilidades infinitas que surgem no percurso, tanto que me empolguei e me entreguei ao acaso que favorece o desavisado, mas eu não era desavisado e esqueci de prestar atenção nos pequenos sinais. Via meu olhar no reflexo da água e quis ser rápido, quis tudo e não vi o que se aproximava. Não vi o gelo que flutuava à minha frente e era um muro barrando a luz do sol, choquei-me contra ele e me despedacei, espalhando pedaços e perdendo um pouco de fé no começo de uma nova jornada. Minhas partes ficaram estagnadas por uma semana, flutuando em volta do muro e me fazendo lembrar da ilusão da velocidade.
Resolvi afundar e ficar perdido, mas há coisas que aparecem na hora certa. E ouvi o canto, e vi o brilho córneo mágico, e a graça das coisas que permanecem escondidas até o momento de se revelarem. Logo me tornei carne, canto e imponência e brilhei com meus iguais que vieram me resgatar.

Nadei, e era uma nawhval, e era bom. Passamos pelas fendas do muro, atravessamos o oceano, conheci o litoral da Terra de Franz Josef, rumamos pelo mar da Groelândia, conheci a costa de Svalbard e no mar da Noruega me despedi.


Pisei na arei e estava na Islândia, país insular situado sobre Dorsal Média Atlântica. Eu estava em um dos melhores países do mundo para se viver devido ao seu alto padrão de vida, ao seu elevado índice de desenvolvimento humano e à alta qualidade de vida da sua população.


Sentia-me privilegiado por estar lá, sentia-me melhor do que os outros e gostava de estar naquela posição. Vivi em um grande centro, trabalhei e ganhei bem, morei em belas casas e apartamentos.

Mas descobri que o deslumbramento e a ganância não trazem a boa vida e mais uma vez errei. Um homem precisa errar quantas vezes para aprender uma lição? Será que encontrarei um dia a salvação? Eu estava louco, no duro. E não queria saber de mais nada. Eu quis fugir daquela ilha vulcânica, mas não tinha força no espírito, no físico e no intelecto para tanto. Retirei-me para o isolamento, não mais festas, não mais pessoas. Precisava estar são, em paz, claridade e serenidade. Peguei meu cachimbo e fui morar em duas casas gêmeas. Eu era uma e era outra. Eu sempre fui muita coisa e a aura celta talvez pudesse me ensinar a ser homogêneo.


Durante a festa do Meio-Inverno, no dia 11 de fevereiro acendi um incenso e rezei para os deuses nórdicos. O vento antigo soprou e lançou o desapego em minha pessoa. O novo viking estava pronto para navegar novamente. E fui criança durante o sono.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Retrato 3

Era manhã quando acordei e percebi que um dos membros da equipe já havia partido. O frio era intenso e imagino que a madrugada deve ter sido cruel. Fiz meus votos pelo bem de todos da equipe, os que ainda dormiam e o que havia partido. Então, antes dos outros acordarem, percebi que o melhor a fazer era partir também. Sem despedidas, sem tristezas. Nos reecontraríamos um dia.
Segui por um certo tempo caminhando até o mar e lá me vi sem saber o que fazer. Estava com meu material de pesquisa e meus pertences, mas não havia definido claramente o que faria e nem para onde iria. Percebi que estava sem rumo e sem direção. É difícil para um homem escolher um caminho se ele não sabe o que quer. Decidir o que se quer fazer da vida é uma escolha que todos devemos fazer de forma consciente pois só teremos uma oportunidade para errar e acertar.
Olhei para o mar, ajoelhei, acendi uma vela e ascendi meu espírito. A biosfera e meu ser se unificaram e minhas sinapses pararam. A decisão é sempre uma coisa difícil quando se foca nela, mas quando deixamos o mundo conspirar, o caos vem em favor de nossas lendas. Somos partes integrantes da Natureza e ela de nós. falamos a mesma língua quando nos permitimos.
Minha face voltada para o oceano, meu espírito expandido, meus lábios ressequidos e minha mente liberta pela estática. O vento sussurou e a luz me fez ver o fogo da alma do ártico.
Nesse momento a mãe natureza me mostrou o círculo no qual eu girava e pediu para esperar até o meio dia.
Ao meio dia eu procurei, mesmo sem saber o que procurava. Olhei para o mar e vi uma calota de gelo se deslocando e minha mente se abriu para o que eu não estava preparado antes. A calota tinha a forma de um barco. Senti meus ossos estremecerem. Peguei minhas coisas e corri. O gelo se deslocava enquanto eu corria em sua direção, tirei meus pés do chão e saltei. Vi-me navegando rumo ao desconhecido.
foram algumas noites frias, mas eu sabia que estava navegando pelo mar Chukchi e sabia para onde o gelo me levava. Eram informações que me invadiam. Eu rumava para o continente asiático, para lugares inóspitos onde encontraria coisas além do imaginado. O frio me trouxe a sonolência e o sonho.

Abri meus olhos e diante de mim estava um homem parado.


Ele disse ser o deus Gelo de Oymyakon, quem guardava o segredo dos lagos quentes. Disse que eu me encontrava em Pevek, Rússia. A roda da fortuna apontava para seu reino. Mostrou-me a direção falando: "lá você encontrará bons homens sedentos de conhecimento. Eles te levarão para Oymyakon onde o inverno é impiedoso e os animais contigo falarão. Quando você cansar do branco do gelo verá mais gelo branco até que você aprenda a decompor as cores da vida".

Eu deixei-me guiar pelo estranho que apareceu. Ás vezes a vida nos surpreende. Muitas vezes pensei em desviar para algum lugar mais quente e vivo. Tinha medo do futuro e meu coração começava a se assemelhar com o ambiente.

Era noite quando o cansaço me abateu. Eu caio. O frio, o vento, a solidão e a falta de perspectiva me tentavam. Quando estava quase desistindo e fechando os olhos, quando olhei para o céu estrelado vi a fumaça.

A possível visão de alguma civilização próxima, de alguma pessoa, até mesmo o reencontro com o deus Gelo me trouxe esperança e com ela veio a força para reerguer meu corpo. levantei e corri em direção à fumaça, não sei por quanto tempo.
Não lembro quando cai. Acordei, com o cheiro quente de café e com a luz que entrava pela janela. Uma mulher veio me trazer o café, mas eu não compreendia o que ela falava. Observei o lugar e imaginei ser uma estação científica como a que nossa em Barrow. Tomei o café, saciei parte da fome que sentia e fui apresentado às outras 5 pessoas da equipe e por sorte duas falavam inglês. assim poderíamos nos comunicar, nunca pensei que sentiria falta de ouvir minha língua nativa, mas qualquer comunicação que tivesse em qualquer idioma que fosse já era melhor do que os dias solitários no gelo.




Passamos três dias nos conhecendo e trocando conhecimentos quando fui informado de que seguiriam para Oymyakon. Convidaram-me e aceitei meu destino. Arrumamos as coisas e seguimos para o lugar onde o chão é congelado.

Lá descobri que Oymyakon significa "água que não congela" em sakha, descobri também os lagos quentes de que o nome fala. E foi mergulhando em um deles que encontrei um urso polar.

O urso olhou para mim e ficou estático, parecia um pouco assustado. Por muito tempo nos encaramos até que ele veio a mim e disse: "transfoma-te no que sou para que veja meu mundo, transfomo-me em ti e tu em mim. Vivamos iguais para que sigas sabendo que vivo e para que eu viva sabendo que vives. Aprenda comigo enquanto aprendo contigo e criemos as sementes de um futuro vindouro para que nada se acabe, mas se transforme."

Olhei de novo para o urso e me apaixonei, vi que ela era minha esperança de uma vida melhor. Ela me mostrou que o alimento está escasso, não havia muita coisa além do deserto branco mas sempre se luta pela vida porque ela é o presente que nos foi dado. Eu era um urso, ela também, nossos pelos tão negros que branco se tornavam. Vivemos juntos, nos amamos e plantamos nossa semente.

Ela me conheceu, viu meus medos, eu vi os dela. ela entendeu a humanidade, eu entendi suaespécie, mas, ainda assim, ela me perguntou "por que?" e eu tive vergonha.

Ela me disse então " eu guardo nossa semente em mim, vá agora e faça algo que melhore as coisas. quando quiseres, volte e por ti esperarei, junto ao nosso legado.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Retrato 2

Não parei para despedidas, não parei para comprimentos ou desejos de boa sorte. Peguei minhas coisas e me coloquei a andar. Andei de carro, andei de trenó puxado por cachorros e de barco, mas andei principalmente a pé e no caminho fui deixando minhas pegadas.
Deixei a costa de Barrow durante a madrugada, coisa da qual me arrependo, pois em lugares frios não aconselho ninguém a viajar enquanto o Sol não aparecer, o clima é cruel e não quer fazer amigos...
A medida que fui seguindo para o interior, abandonando a visão de Beaulford, passei por cidades e por pessoas, conheci algumas, senti a presença de outras e houve quem me conheceu somente com o olhar...
Próximo a Yukon peguei outra estrada. Resolvi ficar, virei médico, me casei, tive filhos e construí meu lar. Encontrei um esquimó que disse ser um alce. Vi uma flor brotar do gelo. Segui para Fairbanks.
Na estrada que peguei tomei outra decisão: sair do Estado do gelo... Eu fui andando.
Eu achei um helicóptero e voei, eu resolvi praticar minhas habilidades de esquiador, eu me transformei em uma águia e segui meus instintos. Andei com os olhos fechados até sentir que devia abri-los. E quando o fiz tive uma surpresa... Eu estava na cidade do Natal...

O gelo era quente, as casas eram bonitas e as pessoas felizes. Todos os dias elas se presenteavam. E acredito que aí reside o segredo da felicidade daquelas pessoas: elas acordavam e davam confiança, compreensão e aceitação. Davam incentivo, amor e perdão. Davam e não esperavam, por isso sempre ganhavam...
Resolvi me fixar naquela cidade por algum tempo e fiquei velho, fiquei novo, nasci de novo e pude consertar meus erros. Então num belo dia enquanto conversava com Mamãe Noel e Tio Bem ela me perguntou: “você lutaria pelo que vale a pena? Uma pessoa não deve se isolar se souber que pode criar algo de bom, se tiver consciência de que consegue fazer coisas valorosas. Todavia se ela oferece amor, ela tem que estar preparada para receber ódio, se ela oferece paz, ela tem que estar preparada para ouvir um grito de guerra, e se ela faz algo de bom ela tem que estar preparada para receber ingratidão. Mas de cada semente plantada um fruto nasce e pode gerar outros!”.
Você já ficou aqui o suficiente... Deve seguir seu caminho e realizar sua lenda pessoal. Você se curou, se fortaleceu. Agora voe novamente”. Tio Bem me disse: “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”.
Foi quando levantei e olhei para cima, olhei para a cidade que deixe, segui o rio.Entrei e sai de Fairbanks, e de muitos outros lugares até me encontrar na fronteira do estado... onde levariam os caminhos que não segui? Para onde vai me levar esse aqui...

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Retrato 1


Vim parar aqui por acaso, um acaso definido que se centra numa idéia... foi aí que me tornei um arqueólogo e que passei a apreciar a pescaria e a biologia...
O frio sempre foi uma constante em mim que até me assustei ao ver que existiam coisas mais geladas e que o gelo eterno é algo que não consigo calcular ou compreender, talvez eu ainda não esteja pronto.
O projeto era estudar as mutações, o projeto era estudar os fósseis, o projeto era estudar a vida, o projeto era não estudar.
Eu segui o rio e quando me encontrei estava preso em um navio que rumava para o Alasca. eu era professor em uma universidade. Eu era aluno do primário e sonhei tudo isso. Eu era um filme e um programa de televisão que era ouvido no rádio.
Havia instalações especiais, no Estado gelado, para os cinco componentes da equipe : Eu, o arqueólogo; Eu, o biólogo; Eu, o geógrafo; Eu, o músico; Eu, o louco. Era uma ocasião única em nossas vidas e estávamos muito ansiosos, muito ociosos. Começamos pela adaptação ao ambiente gelado e árido, e pela demarcação dos terrenos indicados. Pela retirada dos fósseis e pelo acorde Sol Maior porque o branco parece iluminar tudo na luz solar... A alegria parecia ecoar no que fazíamos e do gelo parecia emanar calor.
Comemos salmão, passeamos pelas plantações de macieiras e vimos alguns alces... mas nosso trabalho se concentrava na parte fria onde não há tanta vida assim. nos afastamos das coníferas para escavar um mamute e alguns restos fósseis ainda não identificados. todos os dias foram marcados pela presença mágica da aurora. não a conseguimos expressar em palavras...

As luzes do norte dançavam para nos lembrar que ainda muito trabalho deveria ser feito. Acordávamos cedo, acordávamos tarde, acordávamos ontem e não acordávamos. Eu escolhi o exílio, Eu escolhi a multidão enquanto Eu escolhi ficar preso na alfândega.
Não vi pingüins... não ainda! E foi percebendo isso que decidimos nos separar e procurar outros caminhos para num fim podermos nos encontrar sem encontrarmos a nós mesmos presos no Eu. Os projetos ganharam sua vida, que cresçam e se tornem senhores de seus destinos.

Proposta






O Diário Delirante (DD) tem por objetivo inicial, todavia passivel de mutação o relato das inconsequências dessa mente perturbada que vos reporta. Os relatos aqui presentes não serão necessáriamente tomados no sentido denotativo de realidade, mas na ideia da vida verossímil que é forjada dentro dos redutos escondidos em nosso subconsciente... a ideia se assemelha a um labirinto que é nada mais do que a metáfora da própria vida. É um processo vivo que se modifica sem cessar e desembocará apenas em outro caminho a se seguir com suas infitas possibilidades.


O jogo não se pauta em tentaivas e erros porque os erros são conseqüências de detarminadas escolhas feitas ao longo do caminho que desembocaram em outra possibilidade de percurso (ou mesmo na sua finalização, se é que ela existe) e portanto não deixam de abrir outro leque de escolhas e possibilidades. Diremos, então, que se basta por si só na tentaiva e no percurso. Os três traços definidores do labirinto (não únicos) são encontrados da seguinte forma:


- o labirinto convida à exploração


- a exploração é feita sem mapa e à vista desarmada


- o labirinto é a inteligência astuciosa que o leitor ou o vivente exercita para conseguir progredir sem cair em armadilhas das infitas circunvoluções.


Viva as possibilidades todas de forma una seguindo o exemplo de Ts'ui Pen: " Não existimos na maioria desses tempos; nalguns existe o senhor e não eu. Noutros, eu, não o senhor; noutros, os dois. Neste, que um acaso favorável me surpreende, o senhor chegou a minha casa; noutro, o senhor, ao atravessar o jardim encontrou-me morto; noutro,digo estas mesmas palavras, mas sou um erro, um fantasma". Ts'ui Pen não escolhe apenas uma variavel para se guiar por vez, mas todas ao mesmo tempo. Dito isso há a possibilidade de se seguir um caminho, ou outro, disso ter continuação, ou não, ou ter um fim, ou nem mesmo um começo... a ideia é seguir nessa viajem. O Diário Delirante espera ter se explicado de forma clara e imprecisa, sendo suficiente e insuficiente.


Vamos seguir nessa viagem ao mundo e ver o quanto vamos evoluir com ela e quanto tempo ela durará...

As coisas me tomam de surpresa e olha onde vim parar: no Alasca.


Depois de um dia inteiro estudando os restos dos fósseis encontrados por nossa equipe resolvemos parar para uma pescaria e um descanço... o dia de trabalho foi tranquilo, apesar de tudo, e me deparei com uma frase: "vendo o futuro através do retrovisor...". Tão real na minha situação atual. há coisas que precisam ser entendidas no momento certo. talvez seja ai que encontramos a máxima que diz que o mestre aparece somente quando o aprendiz está preparado para receber os ensinamentos (ou algo parecido)...


(vamos seguindo aos poucos, um passo por vez)